Conecte-se conosco

Internacional

Terra – Rebelião egípcia ganha força apesar das mortes no sul

Publicados

em

Manifestantes antigoverno seguram velas enquanto passam por tanques do exército durante protesto na praça Tahrir, no Cairo

Os egípcios que exigem a renúncia do presidente Hosni Mubarak ignoraram as advertências do regime sobre o risco de “caos” e cercaram, nesta quarta-feira, o Parlamento e a sede do governo, ao mesmo tempo em que chegam informes de incidentes no sul, que deixaram cinco mortos.

Dezenas de milhares de pessoas voltaram a se concentrar na praça Tahrir, no Cairo, epicentro da ebulição político-social, que na véspera foi palco da maior concentração de duas semanas de mobilização.

A pouca distância, centenas de manifestantes cercaram o Parlamento e a sede do governo, que ficam um em frente ao outro. Os dois prédios estavam protegidos por militares e veículos blindados, mas o conselho de ministros teve que ser celebrado em outro local.

“Viemos impedir a entrada dos membros do PND”, Partido Nacional Democrata, de Mubarak, disse à AFP Mohamed Abdalah, 25 anos, ao lado de outros jovens que gritavam palavras de ordem contra o chefe de Estado.

Apesar da persistência da agitação e do toque de recolher em vigor das oito da noite às seis da manhã, a maioria das lojas da capital voltou a abrir as portas nesta quarta-feira.

Nos primeiros dias, as manifestações acabaram em confrontos violentos com as forças de segurança, que deixaram pelo menos 300 mortos e milhares de feridos, segundo estimativas da ONU.

As marchas se deslocaram para outras grandes cidades, como Alexandria e Suez, ambas submetidas ao toque de recolher. Nesta quarta-feira chegaram informes de incidentes violentos em Al Kharga, cidade do sul, onde a polícia dispersou a tiros um protesto na véspera, matando cinco pessoas e ferindo uma centena, informou à AFP uma fonte dos serviços de segurança.

Ao tomar conhecimento da morte dos manifestantes, os moradores enfurecidos incendiaram sete prédios oficiais, entre eles duas delegacias, um tribunal e a sede local do PND, destacou o informe.

Vários movimentos sociais reivindicando melhores condições de trabalho e salário surgiram no rastro dos protestos contra Mubarak. Nos últimos dois dias foram registradas manifestações nos arsenais de Porto Said, na entrada do canal de Suez e em várias empresas privadas que operam neste eixo estratégico do comércio mundial.

O regime tentou todo tipo de respostas para conter a onda de protestos: da repressão às concessões políticas, passando pela aposta do desgaste.

Mubarak, 82 anos, no poder desde 1981, prometeu não voltar a disputar eleições em setembro e o vice-presidente Omar Suleiman abriu um diálogo com setores da oposição, que abarca de grupos democráticos à Irmandade Muçulmana. Mas tudo isso não conseguiu rachar a frente política, nem minguar a determinação das ruas, que continuam pedindo que o presidente saia já.

As passeatas desta terça-feira foram as maiores desde o início do movimento. Centenas de milhares de pessoas voltaram a se reunir na praça Tahrir, onde aclamaram o jovem ativista e executivo do Google Wael Ghonim, transformado em herói após ter permanecido 12 dias detido, com os olhos vendados, por ter participado de uma marcha da oposição.

A página de Ghonim na rede social Facebook, bem como a do Movimento de jovens de 6 de abril tiveram um papel preponderante no desencadeamento do movimento.

Após o êxito desta mobilização, os Estados Unidos instaram o Egito a acelerar sua democratização. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, instou Suleiman a ampliar o diálogo rumo à transição política de mais grupos da oposição e suspender de imediato as leis de exceção, informou a Casa Branca.

Mas Suleiman afirmou pouco depois que uma precipitação nas reformas poderia mergulhar no “caos” ao mais populoso dos países árabes.

Segundo Suleiman, “o diálogo e a compreensão” são a “primeira maneira (…) de sair da crise pacificamente”.

A outra “seria um golpe de Estado e queremos evitar isto”, advertiu. A presença nos protestos da Irmandade Muçulmana – grupo opositor mais articulado – causa um certo temor em capitais ocidentais sobre o risco de que o movimento seja recuperado pelos islamitas.

Um dirigente da Irmandade Muçulana, Mohamed Mursi, assegurou nesta quarta-feira que o objetivo da confraria não é, por enquanto, a tomada do poder.

“A Irmandade Muçulmana não busca o poder. Não queremos participar por enquanto (…). Não queremos apresentar um candidato à presidência” nas eleições de setembro, afirmou.

A rebelião egípcia se inspirou na que derrubou, no mês passado, o ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali, que estava no poder há 23 anos.

Protestos convulsionam o Egito
Desde o último dia 25 de janeiro – data que ganhou um caráter histórico, principalmente na internet, principalmente pelo uso da hashtag #Jan25 no Twitter -, os egípcios protestam pela saída do presidente Hosni Mubarak, que está há 30 anos no poder. No dia 28 as manifestações ganharam uma nova dimensão, fazendo o governo cortar o acesso à rede e declarar toque de recolher. As medidas foram ignoradas pela população, mas Mubarak disse que não sairia. Limitou-se a dizer que buscaria “reformas democráticas” para responder aos anseios da população a partir da formação de um novo governo.

A partir do dia 29, um sábado, a nova administração foi anunciada. A medida, mais uma vez, não surtiu efeito, e os protestos continuaram. O presidente egípcio se reuniu com militares e anunciou o retorno da polícia antimotins. Enquanto isso, a oposição seguiu se organizando. O líder opositor Mohamad ElBaradei garantiu que “a mudança chegará” para o Egito. Na terça, dia 1º de fevereiro, dezenas de milhares de pessoas se reuniram na praça Tahrir para exigir a renúncia de Mubarak. A grandeza dos protestos levou o líder egípcio a anunciar que não participaria das próximas eleições, para delírio da massa reunida no centro do Cairo.

O dia seguinte, 2 de fevereiro, no entanto, foi novamente de caos. Manifestantes pró e contra Mubarak travaram uma batalha campal na praça Tahrir com pedras, paus, facas e barras de ferro. Nos dias subsequentes os conflitos cessaram e, após um período de terror para os jornalistas, uma manifestação que reuniu milhares na praça Tahrir e impasses entre o governo e oposição, a Irmandade Muçulmana começou a dialogar com o governo. Enquanto isso, começaram a aparecer sinais de que Mubarak deve permanecer no cargo durante o processo de transição.

Comentários via Facebook

Leia também

Continue Lendo
Clique para comentar

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *