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Gazeta do Povo – A última chance para Curitiba andar nos trilhos

O PAC Mobilidade Grandes Cidades, lançado pelo governo federal, é a última oportunidade para a capital construir o

A Avenida Sete de Setembro é uma das vias que receberá obras do metrô de Curitiba: prefeitura não tem como bancar sozinha os R$ 2,2 bilhões necessários para a implantação do projeto

tão sonhado metrô.

Lançado no dia 17 deste mês, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Mobilidade Grandes Cidades, do governo federal, pode ser a última chance, pelo menos nos próximos quatro anos, para Curitiba conseguir bancar parte dos R$ 2,2 bilhões necessários para a construção do trecho sul do metrô – 14,2 quilômetros entre a estação CIC-Sul, perto da Ceasa, e a Rua das Flores, no Centro da cidade. O PAC prevê R$ 18 bilhões em recursos da União (R$ 12 bilhões em financiamentos e R$ 6 bilhões a fundo perdido) para obras de mobilidade urbana.

Mesmo com um projeto quase pronto e elogiado pelo próprio governo federal, a capital vai enfrentar outras 23 cidades que buscam uma fatia do recurso. A principal concorrente é Porto Alegre, que também tem um projeto para construção de um metrô.

Se Curitiba perder a oportunidade, ou a concorrência, o futuro do transporte coletivo na cidade passa a ser incerto. No dia do anúncio do PAC, em Brasília, o presidente do Instituto de Pes­quisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Cléver Al­­meida, disse que a prefeitura dará prioridade ao metrô, mas que apresentará outras três propostas. Essas propostas ainda não foram definidas.

Especialistas dizem que Curitiba não tem um plano B caso não seja contemplada com o metrô. Para Lafaiete Neves, autor do livro Movimento Popular e Transporte Coletivo em Curitiba, se a capital não conseguir atrair os investimentos vai sofrer graves consequências. “Curitiba não inova há décadas. Está atrasada. Uma cidade que não projeta inovação perde em competitividade. Quem vai investir nu­­ma cidade com um sistema de transporte que não dá vazão?”, questiona.

Segundo André Caon, presidente da Sociedad Peatonal – organização não governamental ligada a questões de mobilidade urbana em Curitiba –, o metrô é a única solução viável pa­­ra a cidade. “Há tempos Curitiba parou de investir no transporte coletivo para investir no veículo mono-ocupado. O metrô é uma chance de equilibrar a equação”, defende.

Já o engenheiro civil Garrone Reck, ex-diretor de Operações da Urbanização de Curitiba (Urbs) – empresa responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo da capital –, afirma que Curitiba viverá tranquilamente sem o metrô, mas precisará aumentar a qualidade do transporte. “Seria bom, mas se o metrô não vier, não é o fim do mundo. Temos que trabalhar, pesquisar, ouvir o usuário. Aumentar a fluidez, o desempenho do sistema. Curitiba tem que priorizar o transporte coletivo”, diz.

Recursos e licença

Avaliado em R$ 2,253 bilhões, o metrô curitibano precisa de recursos federais para sair do papel. De acordo com o prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, a ex­­pectativa é de que 80% da obra seja bancada pelo governo do estado. O restante ainda está sendo discutido. “Nós temos consciência de que o governo federal não vai financiar a obra inteira”, admite.

A prefeitura ainda não tem uma estimativa de quanto vai aplicar na obra, nem da onde virão os recursos. “Ainda estamos estudando, mas será algo em torno de 20%. Também não sabemos se usaremos recursos próprios ou se faremos empréstimos. Não queremos comprometer financeiramente a prefeitura, principalmente os investimentos nas áreas da saúde e da educação, nossas prioridades”, afirma Ducci.

De acordo com o Garrone Reck, serão necessários recursos dos governos federal, estadual e municipal para instalação do metrô. “A prefeitura não consegue bancar sozinha. São necessários recursos externos. Sou receoso em relação a isso, principalmente pela concorrência com Porto Alegre. Não adianta o dinheiro vir repartido. Não será bom para nós e nem para Porto Alegre”, diz. “E tem que ser a fundo perdido, a prefeitura não tem como assumir dívidas e repassar para a tarifa. O custo da passagem do metrô tem que ser apenas operacional, como em São Paulo, onde o estado construiu.”

Outro ponto crucial para a concretização do metrô é a licença ambiental. A licença depende de uma audiência pública marcada para o dia 15 de março e pode facilitar a negociação junto ao governo federal. “Tudo está bem encaminhando. Acredito que não teremos nenhuma dificuldade para obter a licença”, aposta Ducci.