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Crítica de ‘Kaos’: Zeus peculiar de Jeff Goldblum da Netflix para adultos

Imagine “Percy Jackson” para adultos, misturado com uma pitada de “American Gods” e um toque musical de “Hadestown”. Isso poderia ser a receita para “Kaos”, a nova comédia sombria da Netflix. Mas, em vez de uma criação divina, o que temos aqui é uma série que, apesar das boas ideias, se perde em seu próprio labirinto de mitologias e falha em explorar a profundidade de suas propostas.

Um Elenco Estelar, Mas um Roteiro que Desaponta

Ao longo de oito episódios de uma hora, minha reação a “Kaos” foi do entusiasmo inicial (“Isso é muito interessante, mal posso esperar para ver onde isso vai dar”) à frustração crescente (“Ok, isso é curioso, mas já sei que não vai a lugar nenhum”) até a inevitável decepção (“Meh”). A série tem um elenco impressionante e um tom ousado, mas falta substância e continuidade, o que a faz descer do Olimpo das promessas para as profundezas da frustração — mesmo que, vez ou outra, deixe um gostinho do que poderia ter sido.

Zeus e Seus Problemas Terrestres

Jeff Goldblum, que sempre sabe como roubar a cena, interpreta Zeus, o rei dos deuses, mas também um rei da neurose, obcecado com sacrifícios humanos e uma profecia misteriosa que pode significar sua queda. Governando do Monte Olimpo com sua irmã-esposa Hera (interpretada com gravidade por Janet McTeer), Zeus alienou seus irmãos Poseidon (Cliff Curtis) e Hades (David Thewlis), além de condenar seu antigo amigo Prometeu (Stephen Dillane) a uma tortura eterna. O único filho que ainda atende suas ligações é Dionísio (Nabhaan Rizwan), um jovem entediado que gostaria de um pouco mais de respeito do papai divino.

Humanos como Peões e a Promessa de Revolta

Na Terra, os humanos seguem suas vidas, acreditando que não passam de peões no tabuleiro dos deuses. Mas será que estão prestes a subverter essa ordem divina? Talvez! Quem sabe! O único fato certo é que Cassandra (Billie Piper) já tentou avisar todo mundo.

Uma Construção de Mundo que Falha em Crescer

O que atraiu Covell à ideia de uma sociedade moderna onde os deuses gregos ainda reinam é fácil de entender nos primeiros episódios. A construção desse mundo mitológico é dinâmica e intrigante. Filmada na Espanha, mas ambientada na Grécia, “Kaos” apresenta um cenário um pouco deslocado, onde detalhes culturais e espirituais se misturam de maneira quase surreal. No entanto, conforme a série avança, o que parecia ser um banquete de referências mitológicas se transforma em uma maratona sem ritmo, onde a promessa de profundidade é trocada por reviravoltas superficiais e um enredo que não vai a lugar nenhum.

Referências Mitológicas: Brincadeiras com o Cânone

Quando se trata de mitologia, “Kaos” até diverte os fãs do gênero, brincando com a fidelidade ao cânone e introduzindo correções contemporâneas. Mas a série acaba sendo uma colcha de retalhos de ideias não desenvolvidas, amarradas por uma trilha sonora excessivamente presente e uma narração de Prometeu que mais atrapalha do que ajuda. E se você esperava um clímax à altura do título, prepare-se para um final que mais parece um jogo de palavras mal resolvido do que o caos prometido.

Performances Brilhantes em um Mar de Inconsistências

No entanto, as performances do elenco são um alívio bem-vindo. Jeff Goldblum entrega cada fala com a maestria peculiar que o tornou uma lenda, transformando Zeus em um tirano tão estranho quanto temível. O elenco de apoio, embora pareça estar em séries diferentes, também brilha em seus momentos isolados. McTeer é majestosa e traiçoeira, Rizwan exala alegria decadente e Thewlis intelectualiza o pós-vida com uma melancolia irresistível.

Um Potencial Perdido nas Mãos do Destino

“Kaos” foi encomendada pela Netflix em 2018, e a longa espera, agravada por uma pandemia e greves na indústria, aumentou as expectativas. Mas, no final das contas, a série entrega apenas fragmentos do potencial que Charlie Covell demonstrou em sua obra anterior, “The End of the F***ing World”. A sensação é que “Kaos” começou como um projeto promissor, mas se perdeu no processo de produção, deixando para trás lacunas genéricas onde deveria haver drama ou comédia de alto nível.

Conclusão: Uma Série que Poderia Ter Sido Divina

No Olimpo das séries, “Kaos” poderia ter sido uma criação divina, mas acabou se revelando mais um mortal comum.

Charles

Charles é formado em marketing e trabalha com internet desde 2002, quando a internet era "a lenha". Após anos trabalhando com conteúdo para consultorias, ele resolveu escrever sobre cultura pop e viagens para passar o tempo.

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