Conto da Semana – O carteado no Souza.

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By on 6 de abril de 2011. No Comments

Sempre quando saíamos do trabalho íamos ao Souza, um bar que insistia que era uma padaria. Atrás do balcão a pessoa Souza, sorrindo aquele sorriso falso, de quem abriu às seis pra vender um pão que poucas vezes fui com a cara. “Pra quê você insiste?”. Aquilo não era uma padaria. “É uma padaria. Gente de família”. Souza insistia, mas o Pedro, que se apoiava no balcão, o lembrava: _ De família acabando; mulher que passa aí na frente gritando; de família pra pagar pensão… isso quando você não fica com a pensão…hahahaha. Aquela risada atravessava as conversas furadas. “Souza, eu vou procura outro bar”. Eu dizia mais pra provocar. Ele sabia disso, por isso sorria. Nada disso teria acontecido, se eu tivesse cumprido o dito.

Havia uma galera que ficava mais no fundo do balcão, que eu conhecia de trombar por ali. “O que que é ?”. Canastra. Eu não sabia jogar aquilo. Parecia Pife. Se pá, era a mesma coisa com outro nome. Regionalismo. Eu nem dava muito atenção pra eles. Eu ficava conversando ali na frente do bar mesmo. Uma conversa que não mudava muito a direção: mulher, futebol, Tela-Quente. Aquela bobagem que a gente fala sério. Foi o Gambiarra, meu sócio na velha oficina quem começou a comentar sobre a jogatina. “Cincão, deizão, di-nhei-ro-de-bu-te-co”. Num era mentira. E se até o Gambiarra que não era muito esperto faturava algum, por que eu não poderia fazer o mesmo?

Naquela noite mesmo levei Deizão a mais pra casa. Não era muito. Mas a sensação de vitória era delirante. Quebrava com aquela mesmice de sempre. Quando eu olhei aquela face apática iluminada pela luz da novela, não tive a mesma vontade de me matar. Até pensei em transar mais tarde. O que era besteira, porque ela não vinha me dando há algum tempo. Ela até olhou na minha direção. Ergueu uma das sobrancelhas, que atravessou a luz amarela que refletia na sua testa. Acho que pensou um palavrão que os seus valores censuraram a boca. Era a confirmação que faltava. Sem trepar. Porém, um homem obstinado faz justiça com as próprias mãos. E o banho foi demorado e gostoso. Quase tanto quanto o carteado no Souza.

Robson Vilalba Reis.



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