Obama é apenas mais um sonho.

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By on 20 de Março de 2011. No Comments

Para começar, acho importante ressaltar que no que se trata da disputa de poder nos Estados Unidos, serei sempre Democrata, por mais ridículo que seja o candidato. Aquela velha história de que a pior propaganda contra um Republicano é simplesmente deixá-lo falar faz muito sentido pra mim. Lembro-me de muitas risadas que dei dos discursos da Sarah Pallin, um dos nomes fortes (acredite se quiser) para a próxima corrida presidencial que começa ano que vem no vizinho do Norte.

Em todo caso, eu, como muitos, acreditei demais no homem negro altivo e seguro de si que entrou furtivamente nas nossas vidas com palavras sedutoras do tipo “esperança”, “igualdade” e “paz”. À época, lamentei-me enormemente por não possuir uma camiseta com seu rosto e seu slogan para desfilar nas ruas, estimulando o interesse das pessoas para aquele que em breve viria a ser o chairman da nação mais poderosa do mundo. Em todos os cantos, online e off-line, gente de todos os tipos mostrava-se interessada no que vinha acontecendo nas bandas de lá. Torcemos por Obama como não torcíamos por ninguém desde Lula em 2002. Quando ele chegou lá, estava eu em frente à tevê acompanhando a primavera do povo norte-americano. Comemoramos Obama como não comemorávamos por ninguém desde Lula em 2002. Pensava comigo que “a revolução estava sendo televisionada”. Abri um vinho naquele 20 de janeiro e bebi quase em meio a lágrimas. Eu, como muitos, avistava um futuro próspero e de muitas mudanças.
Aquele homem prometia dar fim às guerras. Acabar com as armas nucleares. Fechar Guantánamo. Universalizar o sistema de saúde que tanto oprime o seu povo. Aquele homem carregava estampado na carta de identidade a tolerância: Barack Hussein Obama. O homem que viveu parte importante da sua vida no maior país muçulmano do mundo. Olhando pra trás, penso que não poderia, naqueles dias, o sentimento que tomava conta do mundo ser diferente do que de fato foi.

Agora o mundo está dando início a mais uma guerra e tudo o que se fala é das embaixadinhas que o presidente Obama fez em visita à Cidade de Deus. Não saberia dizer o que mudou entre o dia 20 de janeiro de 2009, dia de sua posse, e hoje. Nunca antes um Nobel da Paz tinha sido oferecido à alguém cujos esforços pela paz foram muito mais comentados do que praticados. Guantánamo ainda está aí. A reforma no sistema de saúde foi mais tímida do que poderia ter querido qualquer um dos seus entusiastas. Alguns meninos estão de volta, mas as guerras não tiveram fim. Os projetos do homem que mudaria o mundo e o jeito de fazer política foram assolados por uma crise econômica que envergonhou o american way of doing business. Tudo o que ansiávamos se perdeu em meio a pacotes econômicos e medidas para salvar bancos privados à beira da falência. E ainda assim querem que nos ajoelhemos para esse homem…

As palavras de hoje à tarde foram lindas. Faltou chorar quando ele citou aquela célebre frase do Juscelino Kubitschek. Está evidente que o homem veio em paz. E com a melhor equipe de marketing que esse mundo jamais imaginou ser possível haver.
Obama é jovem. Bonito. Magro. Obama é carismático. Tem os melhores discursos que um estadista poderia querer. Mas não me convence mais.

No fim das contas, a conclusão que chego é a mesma de Nelson Rodrigues: ainda sofremos do “complexo de vira-lata”. Não foram poucas as manifestações que vi surgir da irrisória parcela da população mais bem educada desse país. Entre elas, há um grande número que defende que os primos ricos (eles) têm um chefe de Estado melhor do que nós, os primos pobres. Que o chefe dos primos ricos, pelo menos, está a favor de uma “boa causa”, enquanto aqui o poder está comprometido apenas com a própria conta bancária. Colocaram na nossa cabeça que o país não tem salvação. Que somos corruptos por natureza. E, dessa forma, como já dizia Goebbles, uma mentira repetida cem vezes, torna-se desculpa para dobramo-nos ao poder imperial.

Vivian Souza

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