Cinema – “Lixo Extraordinário” acompanha o processo de trabalho do artista plástico desde seu ateliê em Nova York, até Gramacho

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By on 18 de março de 2011. No Comments

“A obra de arte – e paralelamente qualquer produto – cria um público sensível à arte e capaz de desfrutar a beleza. A produção não elabora, pois, somente, um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. “ Karl Marx, Introdução à Crítica da Economia Política

Se existe alguma glamorização na abertura de “Lixo Extraordinário”, com o prenúncio espetaculoso de Vik Muniz por Jô Soares, este serve apenas para introduzir e contextualizar um personagem coadjuvante. Vik será utilizado como mccguffin do filme (termo utilizado por Alfred Hitchcock para elementos narrativos que pareciam ser centrais ao espectador, mas serviam apenas para dar andamento às fitas), um tipo de muleta tanto para o filme, como para os verdadeiros protagonistas da obra. Logo, aqueles que adentram o filme com intuito de saber detalhes deste personagem, sairão decepcionados. Apenas algumas informações referentes a sua humilde infância em São Paulo, sua mudança para os Estados Unidos (interessantíssima) e detalhes do seu cotidiano.

“Lixo Extraordinário” acompanha o processo de trabalho do artista plástico desde seu ateliê em Nova York, até Gramacho – o maior aterro da América Latina, situado em Duque de Caxias (RJ). Nesta longa jornada que durou três anos de filmagem, a diretora inglesa Lucy Walker e os dois co-diretores brasileiros – João Jardim e Karen Harley expõem a benéfica relação de professor/aluno entre Vik Muniz e alguns catadores de lixo previamente selecionados (5 entre 2500). A partir dessa interação, é possível entender a rotina e os dilemas dos catadores, seus sonhos e ambições. O material captado ajuda a desmistificar alguns mitos e denúncia sérios problemas sociais da profissão e do Brasil em geral. Os personagens ganham a tela sob o filtro de Vik Muniz, ou seja, todo e qualquer ato humaniza ambos os lados. É praticamente ele que narra o filme, como uma espécie de diário. Como no excelente documentário de Marcos Prado “Estamira”, o mais interessante aqui não é o lixo, mas os personagens em si. Com isso, os diretores de “Lixo Extraordinário” focam em Tião, um catador com um espantoso talento para líder. Ele é retratado como o revolucionário Marat, pintado por Jaques-Louis David. A obra viaja de Duque de Caxias até Londres, participando de um leilão e arrecadando dinheiro para a Associação de Catadores de Gramacho.

Além de um filme sobre interessantes personagens, um renomado artista plástico contemporâneo e problemas em aterros, “Lixo Extraordinário” expõe todo o trabalho de confecção artística. Todo o processo de criação das obras expostas no MAM ao término do filme perpassa as lentes da câmera. A capacidade de transformação do lixo não é mera obra filantrópica, mas sim, a força da boa e verdadeira arte. O filme é uma co-produção Inglaterra-Brasil e por mais que tenha um olhar estrangeiro sobre o nosso país, funciona de forma eficiente e necessária. Por mais que tenha saído do Oscar sem sua almejada estatueta de melhor documentário, quem ganhou com o filme foram seus próprios protagonistas e claro, o público.

Lucas Murari

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